Palavra , Dança e etc., porque a vida é plural, contraditória, controversa e muito mais...

Diário de bordo, data estelar 25/2/2007

será que alguém ainda visita este blog? Mas se o blog é um diário, tanto faz se só eu o leio. Só após minha filha fazer 1 ano é que consegui sentar para escrever alguma coisa  que não seja trabalho. Fico muito espantada e curiosa com a quantidade de blogs que existem de mulheres com bebês novinhos, com  posts diários. Como é que elas fazem? Quando o bebê dorme, correm lá para postar? Quando a minha bebê dorme, corro resolver coisas do backstage dos cuidados com ela ou para trabalhar, e assim passo quase todas as horas em que não estou com ela revisando ou preparando os textos que os outros ecrevem. Ok, isso é trabalho pago, mas que me cansa deveras, porque eu também gosto de escrever, nem que seja um simples diário. A partir de agora vou me prometer: escrever todos os dias, nem que seja um post curtinho sobre qualquer fato por mais banal que possa parecer. Nem que seja só pra mim mesma. Não, não vou postar fotos da minha filha na internet. Sou encanada com essas coisas. Embora saiba que há pessoas da família que já postaram fotos dela no orkut. Apesar de eu não ser nenhuma celebridade , penso que fotos de filhos são para os íntimos, além do mais não há coisa mais brega na minha opinião do que postar fotos de parentes, a não ser que seja um fotolog, óbvio (desculpem os que assim fazem, mas cada um é cada um, não é mesmo?). Me sinto como um viajante náufrago que está dois anos em uma ilha enviando uma mensagem numa garrafa...

:: Postado por Vera às 19h41
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Foi bom enquanto durou!  

Gostaria de agradecer às pessoas que aqui estiveram e marcaram presença com otimismo e incentivo. Estou me despedindo deste bloguinho, não sem alguma melancolia, que costuma estar presente em todas as despedidas. Por hora estou com projetos que demandarão minha atenção quase integral, e não sou do tipo dinâmico, que faz mil coisas ao mesmo tempo. Preciso me dedicar a uma coisa de cada vez. Aos amigos de blogs amigos: não deixarei de  visitá-los, é claro, que ninguém é de ferro.

Quando tiver mais tempo, volto a blogar de novo.

Muitos beijos iluminados e dançantes para todos!!!!

 

:: Postado por Vera às 11h04
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Enfim férias!!! Iupi! Fui ali na serra da Mantiqueira respirar um pouco e agora estou indo para a praia. Até a volta, pessoal!

:: Postado por Vera às 14h36
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 Meu Jedi favorito

Dia desses fiquei me perguntando por que que eu gosto tanto de Star Wars? Porque no roteiro, o Lucas fez um amálgama de vários arquétipos de mitos de várias religiões e povos, principalmente o oriental. O legal é assistir aos episódios e perceber de qual cultura ele retirou um enredo ou personagem ou situação. E a própria história do cara é bacana. Um sujeito magrelo que junta uma equipe de desenhistas bicho-grilos e num galpão  começam a criar cenários até transformar tudo na Industrial Light and Magic. Os próprios atores achavam esquisitas algumas falas do roteiro. O Lucas por si já é um exemploda história "Acredite nos seus sonhos por mais malucos que eles possam parecer e vá em frente".

Por que o Yoda é o meu Jedi favorito? É o que fiquei me perguntando ao assistir ao episódio da saga que está nos cinemas. Afinal, o "ator" que o representa  nem humano é. É um boneco movido a efeitos especiais e também marionete. Podia preferir os bonitões Obi Wan ou o próprio Luke.  O Yoda é o arquétipo do sábio que também entra em ação, não representa o intelectual sedentário dos nossos dias. Não é somente um sábio contemplativo, pois também age, não esquece de que tem um corpo físico

Sei que o George Lucas fez uma pesquisa extensa em bibliotecas, pois quando começou não existia internet. Estudou O poder do mito, do Joseph Campbell, entre outros. Muito bem, todos os fãs da série perguntam uns pros outros qual é o favorito. O meu é o Yoda, porque, primeiro, ele morreu de velho. Espertíssimo não foi abatido nem teve membros decepados por nenhum oponente. Ele era de fato o jedi mais poderoso entre todos, tanto em concentração do poder da mente quanto como guerreiro. Ele era um bom professor. Ele era macrobiótico (quando Luke o encontra no sistema Dagoba, ele está cozinhando raízes e ainda graceja com Luke por causa da ração industrializada que ele come). Ele era invocado (não deixava os vilões fazerem o que quisessem quando estava presente). Ele fala sábias palavras de um jeito engraçadinho e tinha algum senso de humor: "Desaprender o que aprendeu você precisa". E, por útilmo, era muito fofo.

 

:: Postado por Vera às 21h06
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O rio que parou a cidade

O rio está lá quieto. Ninguém liga para o rio. Cada um segue seu caminho, por estradas de cimento, todo dia. E nem olha para o rio. Ele corta a cidade, grande , caudaloso, não obstante o lixo que todo dia despejam nele. Segue seu curso, alheio às cotações da bolsa e aos prazos estourados de cronogramas. As pessoas que se tornaram robôs funcionários  seguem as margens do rio, mas não ligam a mínima. Só que um dia o rio se encheu, porque ninguém reparava nele. E parou a cidade inteira. A cidade mais metida a besta da América Latina. Daí todo o mundo olhou pro rio, até eu. E o rio saiu na TV. E eu achei tudo aquilo bem feito.

:: Postado por Vera às 19h57
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Outono

Certo dia útil da semana passada num final de tarde estava parada num trânsito daqueles como só sabe ser o de São Paulo. Onde você xinga (pelo menos em pensamento) até a décima geração daquelas criaturas egoístas, fominhas, neuróticas e tão estressadas quanto quanto você. A irritação por estar ali era tanta que seria capaz de morder a direção com toda a força... E eis que de repente, à minha esquerda, num canto de rua, vejo uma chuva de folhas douradas e marrons, derramadas por uma brisa mais forte. As folhas são daquelas como as de plátano ou castanheiras, aquela folha de árvore símbolo do Canadá ou parecida. Ou aquelas que há na rua principal de Campos do Jordão. E era uma cascata que durou vários segundos. De modo que aquilo me mostrou duas coisas: que o outono já tinha de fato chegado e que eu sou uma refém fácil da beleza, pois aquele espetáculo já me transmudou completamente. Agora seria capaz até de oferecer uma balinha aos vizinhos sem educação do trânsito, que não tem a menor importância diante de um espetáculo daqueles. A minha estação preferida, o outono em que nasci .

:: Postado por Vera às 21h47
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A dama das letras infanto-juvenis

Há dois dias, morreu, aos 94 anos, Lúcia Machado de Almeida, que formou gerações de leitores com seus "clássicos" infanto-juvenis O escaravelho do diabo, A borboleta Atíria, As aventuras de Xisto, e outros da série Vagalume. A autora nasceu no município de Nova Granja, em Minas Gerais. Começou a escrever, traduzir e publicar ainda jovem, mas atingiu sucesso editorial por volta dos 75 anos! Vaidosa, não gostava de revelar a idade. Em nenhuma de suas biografias escritas das orelhas e páginas finais de seus livros, se encontra o ano de seu nascimento, como é comum à maioria dos autores.

Não posso dizer que tenha tomado o gosto pela leitura por meio de seus livros, pois já havia descoberto Monteiro Lobato e suas traduções dos contos de fadas primeiro, mas não posso negar a que a dinâmica de seus textos e o modo como aproveitava sua vasta cultura geral para escrever os romances infanto-juvenis era poderosa e despertava o interesse de jovens leitores. recebeu vários prêmios literários nacionais e internacionais.

Há pouco tempo, tive de trabalhar com um texto dela, As aventuras de Xisto, e foi uma delícia. Nem senti as horas passarem. Neste livro, ela utiliza a estrutura das novelas de cavalaria, e me incentivou a criar coragem para ler Dom Quixote. Lúcia cumpriu e continua cumprindo sua missão através de sua obra e de seus leitores.

 

:: Postado por Vera às 21h14
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Herói

 Finalmente, depois de muito tempo consegui me empolgar com cinema de novo. O filme Heroe, de Zhang YImou, de 2002, me trouxe à lembrança imagens como as que o mestre Kurosawa fazia, só que aliado às modernidades da computação gráfica atuais. O festival de cores que se vê na tela, a fotografia, a trilha sonora, direção de atores, demonstra, antes de mais nada, respeito à inteligência do espectador, brindando-o com um esmero impecável e apuro estético. A reconstituição, cuidada nos mínimos detalhes, chega a ser comovente. Os penteados e roupas dos soldados foram feitos baseados nas roupas e adereços das estátuas de terracota dos Guerreiros de Xi’an.

O filme conta a história de uma quase lenda local que propiciou a unificação da China em um império, usando a popular estrutura artes marciais capa e espada chinesas, só que com técnica de última geração. A forma narrativa também é moderna e de modelo circular, com várias versões de um mesmo acontecimento, que põe qualquer Tarantino no chinelo.

Além do mais, os atores e atrizes são belíssimos, não deixando nada a desejar a astros hollywoodianos. Zhang YImou é daqueles cineastas que faz de cada filme um manifesto de amor ao cinema.

:: Postado por Vera às 21h07
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Impressões do show

Fora o fato de eu ter chegado atrasada a um show de dança pela primeira vez na minha vida, estava nervosa. Parecia que eu é que ia dançar. Afinal, não é todo dia que se vê bailarinos autóctones da  dança que a gente pratica, vindos do outro lado do mundo. Emoção semelhante foi quando senti o ventinho do Joaquín Cortéz passando bem do meu lado, quando dançou aqui anos atrás. Porque o atrevido entrou pelo meio do povo, pela platéia e pulou para o palco, mas ninguém esperava.

Voltando para a Dina: Ela me lembrou, pelas roupas, adornos, altura e físico e um modo especial de ser estrela (com razão de ser) a Rita Hayworth. Posto isso, quando conseguia abster-me dos momentos de enlevo, prestar atenção nos passos e movimentos, que ela repetia, porque a dança do ventre como qualquer outra permite isso. É canônico repetir passos, graças a Deus, porque assim a gente tem a oportunidade de observar a mecânica do movimento e verificar que as estrelas são mortais como nós. Um teórico da literatura já havia dito que a repetição é um dos princípios da função poética, e creio que esse conceito  pode se aplicar a outras formas de arte.

Agora, o modo de ela interpretar todo particular e, na maioria das vezes  expressando  sofrimento,  melancolia, assemelhava-se a um soleá, que no flamenco é a hora em que se interpreta e dança o sofrimento. E aquele dedo médio dela encostando no polegar? O que era aquilo, senão uma mão flamenca tradicional? Quem foi que falou que na dança do ventre a gente tem de fazer mão de espátula ou então aquela mão bobinha, discreta, meio mortinha? E as finalizações que ela faz, fortes, poderosas, com a mão em punho?

E juntando com a presença da Randa aqui no Brasil, lembrei-me que as profas passaram para nós uns movimentos do workshop dela. Eis que a Randa faz um giro com virada forte sem precedentes para a dança do ventre, que poderia muito bem ser uma virada flamenca.

Isso tudo quer dizer que feliz descobri em pequenos entremeios e gestos a parecença entre as duas danças que muitas vezes percebemos entre músicas árabe e flamenca. Isso quer dizer também que não preciso ser o tempo todo uma boneca delicada na DV. Posso estrapolar, fazer a mão que eu quiser (Porque as professoras implicam com a minha mão flamenca na DV. Uma delas me disse certa vez que minha mão tinha vida própria, ao que eu respondi  a ela: e você ainda não viu nada!) Graças a Deus! Porque se depender da minha mão posso voltar ao flamenco tranquila.

Que emoção que me deu também quando senti semelhança entre o início da música que o Ashraf Hassan dançou e um desafio de repente de viola nordestino, por exemplo. É perceber em uma abaixada rápida da Dina  uma passista de escola de samba. Adoro perceber essas semelhanças. Fiquei pensando por quê, e embora não tenha definido bem, acho que é porque isso mostra que apesar das grandes distâncias somos todos um mesmo povo dançante. Esse mundo é mesmo muito pequeno!

:: Postado por Vera às 21h00
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Eu solta no Mercado Persa!

Neste fim de semana aconteceu aqui em São Paulo, no Clube Sírio-Libanês,  o Mercado Persa, uma espécie de megabazar de produtos de DV, com desfiles de figurinos, apresentações de grupos profissionais, amadores e concursos. Nunca tinha ido e resolvi conhecer de qualquer jeito. Pensei que com marido a tiracolo ficaria mais difícil gastar, pois ele ficaria me apressando para ir embora. Mas para minha surpresa, o bicho estava paciente, de modo que acabei meus últimos tostões comprando bugigangas, todas muito úteis é claro, principalmente dvd's piratas de show bacanas, pois sou uma imcompetente para baixar programas de vídeo pela internet. Nem foi muito cansativo. Algumas coisas tem descontos legais e dá até para pechinchar. Cheguei, comprei logo tudo o que queria,  babei pelo que não dava para comprar e ainda vi a tia Lulu desfilando e um show de folclore legal.

Chegando em casa, fui logo assistir aos vídeos e conheci a Randa, pois fiquei curiosa sobre ela por causa de uns passos maneiros que as professoras passaram do workshop dela. E não é que ela bacana! É alta e tem um corpão, o que mostra que a dança não é feita só para sílfides. E é espontânea, canta a música junto, é muito expressiva e faz um movimentos originais e ditos proibidos na DV, com pernas altas, etc. Adoro bailarinas que fazem movimentos proibidos! Maneiríssima a Randa. Gostei!

 

:: Postado por Vera às 21h38
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A demanda  dos ingressos

Mais de mêse meio depois de ter pago e insistentes solicitações, estou com os ingressos para o show da Dina em mãos. E olha que moro bem próximo da filial da escola que promove o evento. Não tenho nada particularmente contraaescolamas a desorganização foi gritante. Não consegui deixar de dizer à pessoa que isso me desestimulou de fazeroworkshop, porque se com a  simples entrega de ingressos estavam tendo esses problemas, imagine com a organização do evento em si. A coisa me foi dificultada até o último instante, pois apessoa que estava de posse dos meus ingressos quando chegei à escola tinha ido almoçar!

Não basta pagar. Para ver a maravilhosa, há que pedir, implorar! meu medo era que:comprado lugares praticamente nas primeiras filas, me entregassem por engano, sei lá, lugares trocados na última hora e eu tivesse que me ralar pra conseguir os certos.

Só espero que valha muito a pena ver a Dina de perto!

Agora só para relaxar um pouco, vendo as roupas da Dina, dá pra perceber onde a Soraia arranja inspiração para o figurino. Isso só prova aquele velho ditado: Que o hábito realmente não faz o monge. Pois apesar da bregura, essas duas não deixam de dançar maravilhosamente!

:: Postado por Vera às 20h18
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Aulas de dança com caderno

Agora sou uma aluna que faz aulas de dança com caderninho. É claro que não levo o caderno à aula, mas assim que chego em casa anoto todas as seqüências. E como está sendo útil! Se tivesse feito isso há mais tempo, quanta coisa a mais não estaria na cachola.  Pode ser que para a maioria seja comum, mas pra mim é novidade. É que fui mal-acostumada com uma professora do flamenco e outra da dança do ventre que traziam as informações teóricas todas apostiladinhas.

Daí no workshop da Soraia vi que um monte de gente parava toda hora para anotar no tal caderninho. Invejei e comecei a fazer o mesmo. E não é que foi me surgindo uma idéia: Na verdade vou abrir meu sonho aqui neste blog. E peço favor não caçoarem. Acalento o plano de a médio prazo mudar-me para uma cidade de um interior qualquer. Daí penso em abrir assim no meu quintal um modesto studiozinho. Então o caderninho pode servir de material para futuras aulas. Se o plano for concretizado tardiamente, já terei chegado à terceira idade. Não faz mal:  poderei dar aulas para mulheres também da terceira idade. Além de poder escrever meus textos em sossego. Talvez seja um projeto pioneiro... Quem sabe.  Sonhar é preciso...

 

:: Postado por Vera às 21h01
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Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para as árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

ALBERTO CAEIRO

:: Postado por Vera às 21h03
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Pomba-gira barraqueira

Na fila da bilheteria do metrô às 6 da tarde. Uma pessoa feminina procura aflita o bilhete que pensava ter deixado na carteira, para justamente não ter de pegar aquela fila de metrô às 6 da tarde. Não encontrou o dito cujo, é claro, e conformou-se, não sem alguma ansiedade.

Outra pessoa feminina coloca o corpo de maneira a tentar furar a fila, a qualquer deslize da primeira. Ao que esta, num impulso, replica "Ei!".

A virtual fura-filas replica "Hum!"

A primeira pessoa feminina não se conforma com a desfaçatez da fura-filas e replica "Hummm!"

A fura-filas não se conforma e, não esperando a bilheteira dar o troco à primeira pessoa feminina, já coloca o dinheiro no balcão com forte mão espalmada.

A primeira pessoa feminina pega o bilhete, o troco e rebate: "Pensa que é só você que tem pressa?", e sai, sentindo-se de certa forma vitoriosa.

De repente sente um encontrão pelas costas. É a fura-filas, que não tendo conseguido seu intento, passou por ela e ameaçou "Vai apanhar, hein?", e segue em frente. A primeira pessoa feminina imediatamente rebate alteando a voz. O impulso outra vez. "E quem vai bater? Vem cá! E olha que ainda chamo a segurança! Você não é duas, não!"

O segurança ao lado observa a perrenga e acha graça. Machista que deve ser, não leva a sério uma contenda entre mulheres.

A mulata fura-filas descendo as escadas rolantes "Você não sabe com quem tá mexendo."

A primeira pessoa feminina "Nem você, nêga!", e desce atrás da outra.

Por ironia do destino vão pegar o trem na mesma direção. Com o sangue subindo à face, a primeira pessoa feminina decide focar bem longe da outra e fingir que está lendo um cartaz, para não levar às raias da loucura aquela aperreação. Ambas olham-se de soslaio, a distância.

A questão é: Engalfinhar-me-ia mesmo com a mulata fura-filas no metrô? Que show bizarro não daria ao povo? Como pode a pessoa perder o elã por qualquer bestagem? Tudo culpa do ego! Esse componente inútil na psique do ser humano. O que diria ao acupunturista, aquele ser tão zen, quando chegasse lá? Que motivo daria para o rosto afogueado e as emoções em polvorosa?

Ou teria recebido alguma pomba-gira barraqueira? Pelo sim, pelo não, elucubrações freudianas e umbandistas à parte, melhor não usar mais aquela saia vermelha com blusa decotada.

:: Postado por Vera às 13h09
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Atleta lendo sentado em degraus

Está com calça de agasalho e camisa regata listradas e esportivas tipo adidas. De pernas cruzadas, empertigado, costas retas e perfeitamente alinhadas. Nas mãos um livro de bolso amarelado, páginas amarfanhadas e carcomidas nas bordas. Segura o livro e muito concentrado e sorridente lê, ali sentado nos degraus de uma loja abandonada. Parece asseado e é magro. Poderia ser mesmo um atleta esperando o técnico não fosse pelos trenzinhos que estão ao lado: cobertas recém-dobradas, sacola de pano velha com seus pertences. Lê sorridente o seu velhíssimo livro de bolso sem capa. Parece não se importar com o movimento incessante dos pedestres que passam tão rápido, correndo não se sabe pra onde àquela hora da manhã. Alguns dos passantes, em meio à pressa matinal, dão-lhe um décimo de segundo de atenção do cantos dos olhos, nos quais se lê pena, mais um sem teto. E este é asseado, e se não é, pelo menos quer parecer, atlético, e culto, pois lê atentamente o seu livrinho. Alguns balançam a cabeça. Mas espera: Quem foi que falou que eu é que estou certa, toda enquadrada no status quo, só porque estou correndo como todos os outros, para um trabalho? Do ponto de vista dele, os loucos somos nós, que corremos, feito loucos, não se sabe pra onde nem para quê. Às vezes pára, olha os passantes apressados: para que estão correndo tanto mesmo?, pergunta-se o atleta sentado nos degraus, e volta sorridente à sua leitura.

:: Postado por Vera às 18h01
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